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{DEEP INHALING}

arabacusplex:

i’m not even confused about my sexuality i just don’t really give a shit

(Source: lucyliubot, via too-stoned-to-remember)

spiritual-realm:

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lonequixote:

Vase with Fifteen Sunflowers ~ Vincent van Gogh

Querida Prudence,

Já não sei se o certo seria chamá-la de Capitu pois as duas ainda estão vivas dentro de mim, sempre as separei mas sinceramente acho que atualmente não faria a mínima diferença. Porém, apelo à você mais uma vez, sem razão específica… Escrever à ti é como jogar palavras ao vento, fazer desejos quando um cometa passa, ou então pedir no dia 31 de dezembro que o próximo ano seja bom. Engraçado como as pessoas simplesmente acreditam, se apegam a qualquer pedaço de esperança ou sanidade que as fazem seguir. E, desculpe-me novamente, mas você ainda é o meu. 

Sinceramente não sei porque escrevo, não sei… Sinto falta tua falta.

Ontem foi um dia ruim. Daqueles dias em que não acontece nada mas ao mesmo tempo essas 24 horas tem a capacidade de sugar toda sua vitalidade, aquela coragem que nos faz levantar da cama se atrasa e simplesmente não vem. E então ficamos a esperando como náufragos perdidos sedentos por água limpa, apenas dormimos mais ou tentamos nos distrair para acender qualquer chama que possa nos fazer viver. Eu devia me acostumar, a vida é feita de de altos e baixos, não? Infelizmente me acostumei apenas aos dias suportáveis, esses dias miseráveis que se fazem possíveis por 100 mg diárias de cloridrato de sertralina - a substância da felicidade, como diria meu Freud pessoal. Porém, a maior tristeza é a de que a própria tristeza não é extinguível, apenas controlada e adiada, talvez apenas controlada pois creio que o objetivo de tudo é que esta seja sempre que possível não sentida.

Mas sinto que apenas a adio, já que quando a mesma se aproxima é como uma onda que derruba tudo que vê ou que construí pela frente. Vem sorrateira, primeiro apenas pela brisa e o vento gelado que deixa tudo a minha volta frio. Depois vai crescendo como quem não quer nada, como apenas maré forte e passageira de um dia de tempestade, até me tomar por inteira e me fazer retomar consciência quando estou à ponto de me afogar nos meus próprios pensamentos. Eu sei que o caminho é difícil, mas alguns dias são mais difíceis do que os outros.

Na verdade acho que tudo começou um pouco na quarta, quando fui operar. Cirurgia simples, saí no mesmo dia com direito à descanso em casa, mas o que matou foi o hospital. Argh, todo meu medo estava concentrado na possibilidade de passar a noite naquele lugar branco e vazio, depois de setembro do ano passado minha reação é sempre a mesma: ansiedade e pavor de qualquer coisa relacionada à soro ou à passar a noite sozinha dentro daquelas quatro paredes cheirando a desinfetante barato. Felizmente, ocorreu tudo bem. Infelizmente, não parei de pensar em você. Às vezes só acontece, às vezes eu durmo de boca aberta no ônibus, às vezes eu como mais chocolate do que eu deveria, às vezes sinto mais saudade ainda de você. E sempre é sufocante porque entro nesse eterno limbo entre afastar esses pensamentos ou fazer com que essas lembranças se tornem fantasmas e consigam me tirar um pouco da solidão, como você fazia.

Eu conheci pessoas incríveis, Prudence. Eu conhecia e conheci mais pessoas incríveis e bonitas, pessoas que amenizam minhas tardes frias ou que fazem com que eu recupere a esperança de encontrar gente boba como eu, pessoas que acreditam em pessoas. Algumas não são totalmente século 19 assim, é claro, mas são tão acolhedoras e amáveis como jamais alguém as julgaria como tal - a Cléo que o diga, um anjinho disfarçado de durona sem sentimentos mas que cuida de mim como uma irmã distante. Porém, o maior defeito dessas pessoas tão especiais que me fazem ser uma eterna apaixonada pela alma humana é o fato de que elas são únicas. Sim, terríveis seres únicos e insubstituíveis.

Talvez no fim de tudo seja isso que me sufoca, talvez o meu maior medo seja que na verdade eu não consiga preencher esse vazio que ficou porque no fundo eu saiba que nada nunca vai ocupar teu lugar. Dramático pode parecer, eu sei, mas como eu supostamente deveria conseguir substituir algo que fez parte de mim como nada havia conseguido me atingir antes? Algo não, uma pessoa, uma amizade, uma luz dentro de todo aquele caos. Eu sei que deveria, mas como eu simplesmente deveria deixar tudo isso para trás como se eu nunca tivesse olhado nos seus olhos e segurado na sua mão no Leblon à noite naquele 19 de janeiro de 2013? Eu não sei o que fazer Prudence, eu só não sei… Eu sempre penso em te deixar ir, ser livre, viver tua vida sem te sufocar com a minha, e eu até que estou conseguindo ter certo controle sobre isso, pensar que você está bem  me conforta, dá impressão que tudo vale a pena ou o esforço. Mas sempre resta a sensação de não estar fazendo o suficiente, de não demonstrar o quanto eu te prezo, o eterno e se ela não souber que ainda é imensamente importante para mim? ou ela precisa lembrar o quanto é especial, porque eu sei que ela é, afinal, eu prometi que não soltaria tua mão.

Às vezes eu fico horas e noites apenas refazendo meus passos, nossas conversas e remoendo tudo que eu poderia ter feito de diferente para não termos chegado a esse ponto. Qualquer coisa me conforta, jogar culpa nas minhas paranoias, na minha doença, na minha intensa necessidade de carinho e demonstração de afeto, nas minhas inseguranças e tudo que eu cobrei de ti que não era passível de cobrança. Desfio cada célula do meu corpo e me deixo responsável pois prefiro assim, prefiro assumir toda a culpa ou qualquer coisa relacionada a ela do que pensar na possibilidade de que você possa ter se afastado de mim por vontade própria ou então involuntariamente, como consequência do tempo passado comigo. Como se um dia você tivesse acordado e percebido quem eu sou, percebido que não sou interessante ou muito menos a pessoa bonita que você achava que eu era, como se no final das contas você tivesse percebido que de especial eu não tenho nada.

Então eu só deixo para mim, sabe? Deixo escondido, aqui dentro. Me deixo pensar nos meus defeitos e tentar mudar tudo de podre que tem dentro de mim, tentar mudar tudo que possa afastar as pessoas como eu fiz com você. Acho que nunca vou me perdoar, e na verdade talvez nem queira. Eu quero conviver com a dor, eu preciso conviver com a dor, com esse peso. É o mínimo que eu me julgo merecer depois de ter feito isso comigo mesmo, por ter a perdido.

Ainda não sei porque te escrevo, talvez seja porque depois de todo esse tempo eu ainda te sinta como a única pessoa que me compreenda. Não sei, não sei… A única certeza é a de que sinto tua falta, e acho que em relação à ti minha única certeza sempre será esta.

Se cuida, olhos de ressaca.